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Nossa História

A gênese da Aldeia de São Pedro
Além de alguns motivos particulares, de menor importância, os aldeamentos dos índios obedeciam, no Brasil a um tríplice fim: catequese, educação pelo trabalho e defesa militar. Nos do Rio de Janeiro, os sítios em que ficaram as três Aldeias, São Lourenço (Niterói), São Francisco Xavier (Itinga-Itaguaí) e São Barnabé (Macacu), caracterizavam, sobretudo o pensamento de defesa no entorno do centro geográfico fluminense que é a Baía de Guanabara: uma de cada lado da baía (São Lourenço e São Francisco Xavier) e outra no fundo dela (São Barnabé), formando o triângulo defensivo da Cidade do Rio de Janeiro (FIG. 1). São Pedro do Cabo Frio, a nova aldeia, era mais uma guarda avançada para a defesa do promontório, local que os inimigos de vez em quando se atreviam a rondar .
A Aldeia de São Pedro de Cabo Frio ficou isenta das invasões e guerras, porque não fazia parte do grupo de Aldeias de Sua Majestade e porque os padres, pela experiência adquirida nas primeiras aldeias, rodearam-se de cuidados especiais, permanecendo incólume aos episódios bélicos que atingiram outros lugares, como a invasão das missões paraguaias e as perturbações em São Paulo, Santos e na cidade do Rio de Janeiro em 1640 .
Em 1689, o Provincial Diogo Machado visitou as Missões e traçou o seguinte quadro:
“Primeira, com a invocação de São Pedro, distante 20 léguas, no sítio que chamam de Cabo Frio. Constam 1500 almas. Nela assistem dois religiosos sacerdotes que duas vezes ao dia lhes ensinam a doutrina cristã em sua língua, administram os sacramentos da Igreja, acodem em suas necessidades assim espirituais como temporais com grande zelo e caridade. Celebraram-se no decurso do ano as Festas e na Quaresma os Ofícios Divinos com música de canto de órgão com seus instrumentos competentes, tudo exercitado pelos mesmos índios com notável asseio e devoção, com que se edifica o povo circunvizinho que a eles concorre. (…) São Barnabé: 843 almas; São Lourenço: 330 almas; São Francisco Xavier: 356 almas” (SEPP, 1972, p. 102).

A expedição a Cabo Frio, em 1575, acabou com a resistência dos brancos vindos do Rio e além mar, mas muitos estrangeiros continuaram a invadir as terras do litoral fluminense. Foram expulsos franceses, holandeses e, em setembro de 1615, os ingleses, de forma definitiva, por Constantino Menelau, ajudado por índios de diversas aldeias jesuíticas .
Para evitar a repetição das incursões estrangeiras, determinou-se em 1616 que se fundasse uma cidade como apoio e defesa das águas do norte fluminense. A proposta da nova fundação foi apresentada aos padres jesuítas do Rio de Janeiro, na pessoa de seu Reitor, o Padre Antônio de Mattos. Os padres aceitaram a missão e coube ao Padre João Lobato, superior da Aldeia de São Barnabé, estudar os locais e verificar a ideia sugerida de se utilizar os índios das Aldeias de São Barnabé e São Lourenço .
Logo se chegou à conclusão de que não haveria índios suficientes que assegurassem a vida das novas Aldeias sem o enfraquecimento das próprias. Viriam, então, índios do Espírito Santo, a aldeia de Reritiba e, em vez de duas, bastaria uma para empreender o projeto. Condição indispensável: demarcação de terras tanto para a cidade como para os índios e para a residência dos padres. O Reitor do Colégio do Rio, Pe. Antônio de Matos requereu uma sesmaria para os índios e obteve deferimento. O requerimento, com outras cláusulas, foi deferido a 13 de maio de 1617 .
Conta-nos Serafim Leite que em 1619, o Provincial Simão Pinheiro visitou a aldeia e, num documento de 1620, relatou a sua visita, que é também a primeira página histórica da redução e, por essa razão, merece ser aqui reproduzida em maior detalhe:
Esta teve princípio em 1617. Exercitam nela os ministérios da Companhia dois padres, que trouxeram para ela, da Capitania do Espírito Santo, 500 índios. O capitão de Cabo Frio, Estêvão Gomes, recebeu-os com todo o obséquio e cortesia. E os padres, feito o desembarque, principiaram por Deus, sem o qual nenhum começo de coisas pode ser feliz. Celebrou solenemente o Santo Sacrifício da Missa, com cantos a duas vozes, pelos índios que trouxeram consigo. Depois seguiram para o lugar escolhido, levantaram a Igreja e construíram as casas.
Mal se podem narrar as dificuldades do começo, tanto é o ardor do sol que mata todo vigor das plantas e o germinar delas, refutando o nome que lhe deram de Cabo Frio. Seguiu-se grande fome e dispersaram-se os índios à busca de mantimentos. Um arbusto silvestre, bem moído, dava a farinha; e assim com tanta carestia de alimentos, apenas com alguma fava e feijão, jejuaram toda a Quaresma. Mas esta incômoda abstinência já se transformou em alegria, com juros quase de cem por cento. Toda razão de se fundar a Aldeia foi guardar a Fortaleza, a que se deu o nome do nosso Patriarca Santo Inácio, contra os piratas inimigos que infestavam os mares, surgiam de repente e levavam para suas terras o pau vermelho de que a região era riquíssima. Para acabar com estes latrocínios é admirável o que aproveitou a Aldeia. Os piratas já tentaram vir duas vezes. Os moradores, comandados pelo capitão da Fortaleza, caíram impávidos sobre eles e matando uns e capturando outros, triunfaram em ambas as pugnas. O inimigo achando pouco segura a terra, abandonou a região.
O Provincial Simão Pinheiro veio visitar este porto, com grande regozijo do Capitão (Estêvão Gomes), que estava na praia e recolhendo-o a ele e aos seus companheiros do navio numa canoa, o levou com todas as honras à Fortaleza, que recebeu tão grande hóspede de bandeira içada e troar de canhões. Depois, com grande acompanhamento de Índios, veio para a Aldeia que dista duas léguas, onde batizou um grupo de meninos, os filhos dos Tamoios ainda inocentes, com a possível cerimônia e pompa, e com a maior alegria dos pais. Oxalá conduza Deus a bom termo e com o mesmo ritmo, o que assim começou com tanto lustre” (SERAFIM LEITE, 1945, p. 120-121).
Padre João Lobato foi o primeiro padre da Companhia a se estabelecer na Aldeia de São Pedro, em 1617. Dois anos mais tarde, apareceram nela os padres Pero da Mota e André de Almeida. Este era o Superior de Reritiba, de onde vinham os índios e, possivelmente, seria o responsável pelas obras da Igreja permanente . Germain Bazin (1983, v.2, p. 146) diz que as construções foram edificadas pelos índios de Reritiba e que certamente foram conduzidas pelo Padre André de Almeida após sua chegada a São Pedro, em 1619, o que explicaria a adoção do plano de três naves como a da Igreja de Nossa Senhora da Assunção (FIG. 2). Em 1620, mais dois padres se juntam à Aldeia para poderem cuidar dos índios goytacá, cuja língua era diferente da língua geral já ensinada pelos missionários jesuítas .
A situação econômica de São Pedro de Cabo Frio nesses primeiros tempos era precária. O Colégio do Rio de Janeiro se responsabilizava por todas as necessidades e despesas. Depois, com a utilização da Fazenda de Campos Novos, a Aldeia conseguiu se autonomia para se manter e foi o início da virada do aldeamento em um rico povoamento, capaz de se impor como referência naquela região.