Eis o Advento

Monsenhor Guedes

Nesta estação do ano, chamada primavera, estamos contemplando o belo e fenomenal visual que a natureza nos proporciona: árvores providas de folhas em galhos majestosos, flores, as mangueiras repletas de mangas, os rios que andaram diminuídos de suas águas agora parecem tomar força e vigor, os pássaros encontrando abrigos com mais facilidades e nos oferecendo seu alegre canto. Também não é difícil encontrarmos árvores com flores roxas.
A natureza parece nos dizer que está chegando uma nova estação do ano litúrgico, chamada tempo do Advento. As árvores e as plantações repletas de vida vegetal são sinais de madura expectativa de abundantes colheitas.
É neste clima fecundo que a Igreja nos traz o Advento como tempo de madura expectativa. Esta expectativa chega para dizer às pessoas que o Senhor quer entrar no nosso tempo não para nos deixar aqui neste tempo, mas para nos conduzir ao tempo da glória, o céu. Abrem-se para nós os horizontes de nossa madura esperança para o amanhã que há de vir. O Advento de hoje traz-nos a grande maravilha do confronto entre nossas desesperanças e desassossegos e a perene presença do Senhor que já veio, vem e virá revigorando nossas forças e nos projetando no futuro de glória e esplendor. Este tempo nos convida a uma vida de intensa parceria com o Senhor que nos cativa em todos os momentos e nos proporciona a um progressivo crescimento na fé concreta e exercida em cada ato que praticarmos. Chega o Advento para nos dizer que embora sejamos senhores da história criada não podemos nos servir desta história na construção do nosso tempo divorciado do próprio Autor do tempo. Caso isto venha a acontecer conduzindo o aparecimento de um corte profundo entre o primado da eterna autoridade divina, o fracasso se torna inevitável e perdemos nosso referencial primitivo, isto é o estado de graça e de comunhão com o Criador. O tempo de Deus é só de luz, mas o do homem pode ser de trevas e sofrimentos. O Advento chega e na Sagrada Liturgia a mãe da Igreja nos coloca na feliz expectativa da segunda chegada do Senhor que desta vez não terá uma permanência aqui de sofrimentos, incompreensões e morte, mas uma presença triunfal e de poder para nos tirar daqui desse tempo marcado, por vezes, de sofrimentos, pecados e dores e a nos conduzir no tempo da glória definitiva. Aqui se desfaz o véu do transitório tempo e entramos no definitivo tempo do céu. As trevas vão se dissipando porque “o povo que andava na escuridão, viu uma grande luz” (Is 9,1). O coração humano há de bater no paradoxo de uma paz inquieta, ou seja, é necessário uma vida de madura sintonia com Deus e com os irmãos. Alguns aspectos essenciais do nosso ser precisam se revigorar: a vigilante e alegre atitude de uma adulta vida Cristã, a esperança revigorada, a conversão e abertura para Deus e ao irmão e a busca incansável das virtudes, fruto de uma luta constante. A lembrança da indispensável companhia de Maria há de nos colocar na certa dimensão de alguém que espera as promessas de Deus, Nele confia e está sempre disponível com plena docilidade à atuação do plano de Deus. Conclui-se que a nossa vida do hoje de nossa história deve ser um Advento continuado.
A fecundidade do Advento nas quatro semanas que o compõem, principalmente nos domingos, haverá de acontecer na preparação e execução das celebrações com sobriedades, a evidência da cor roxa, cantos próprios deste tempo, elementos significativos que ajudarão na contemplação e, sobretudo na vivência de uma estação litúrgica pequena, mas riquíssima de conteúdo. Não tenhamos pressa de trazermos para o Advento aquilo que é próprio do tempo do Natal.
A grande certeza do Advento é esta: o Cristo que já veio e assumiu os desequilíbrios do nosso tempo é a razão máxima para celebrarmos o Cristo que vem no agora de nossa história nos proporcionando e nos revigorando na absoluta certeza de que um dia Ele virá na sua glória. Desfaz-se aqui toda e qualquer expectativa e o tempo do céu será o nosso tempo.